Quarta-feira, 15.09.10

este blogue chegou ao final, o autor continuará noutras plataformas, como quem o conhece sabe.



publicado por J. Crimesalapis às 20:36 | link do post

Domingo, 05.09.10

(…) ao fim vieram duas crianças, eu sem entender, e tu:

- ora, james, os teus irmãos.

A enfermeira baixinha ajeitava-te o soro, ninguém mais no quarto, mas teimavas:

 - vê-me lá dos meninos.

Fingi  que sim e fui tomar um café, lembrei-me então de uma história remota: dois bebés a não te resistirem de meningite. Regressado, a enfermeira baixinha informou-me:

- lamento (…)

 



publicado por J. Crimesalapis às 23:50 | link do post

Quarta-feira, 01.09.10

(…) este verão, na esplanada de há vinte anos, reencontrei-te (estás velha) mas não te disse:

- olá rapariga.

Antes fiquei de longe a patinar na prosa que tinha em mãos, com sentido em ti, a desviar-me quando me olhavas, a olhar-te mal fugias, escutando entusiasmos sobre a tua quinzena de praia (talvez seja do bronze), sabendo das diatribes duma filha adolescente, tão ingrata que saiu à parte canalha do teu divórcio complicado (ou então da família), e sem anéis os meus dedos transpirados, incessantes a folhear romance, evitaram a custo acenarem-te:

- olá rapariga (…)

 



publicado por J. Crimesalapis às 17:54 | link do post

Segunda-feira, 23.08.10

(…) quando muito, tacteio-me para a barba se me forçam a sair. Deve fazer quatro ou cinco anos, partiu-se o espelho cá de casa: não me olho, desde então.

Imagine-se, pois, o meu consolo em deixar de ser arguido nessa coisa da vaidade, ficando sem a obrigação legal de ajeitar as minhas melenas

- pavorosas

ao cruel juiz de vidro, vezes sem conta retocadas a dedo, e quando finalmente pareciam perfeitas, atiçava-me

 - brancas

com o espectro da minha finitude. Não contente, um dia descobriu-me

- noitadas 

pés de galinha, papada e grandes olheiras, tudo junto. Fui-me a ele, voz grossa em inglês americano, como um touro

- you talkin`to me? you talkin`to me? are you talking to me?

enraivecido, ainda com os do talho, sempre a mesma mania: um tipo pede vitela, afinal é vaca. O espelho inculto cedeu, estalou de medo

- then who the hell else are you talking?

e despedaçou-se, acabando sepultado num túmulo digno, chamado lixo (…)



publicado por J. Crimesalapis às 20:40 | link do post

Domingo, 22.08.10

(…) é domingo (domingo?) e não me apetece nada ir buscar almoço: chega cá plástico. Hoje não. Hoje penso governar-me com atum, do de lata, em óleo vegetal (escorro bem e reservo) e, de resto, ainda há pão. Duro, mas há. Também, lembro-me agora, deve andar por aí meia cebola a grelar algures (espreito sob a banca), no chão da cozinha (arrasto o frigorífico), se deus quiser dará uma refeição decente, uma salada talvez, molho cru aproveitando aquele óleo (desperdício, não), duas ou três folhas de louro, lamino um dente de alho muito fininho, junto vinagre abundantemente e (terei?) umas pedras de sal, porque se não tiver, não há problema, comovo-me a ver de louça lavada (…)



publicado por J. Crimesalapis às 09:38 | link do post

Sexta-feira, 20.08.10

(...) se a vida me devora, reparo-lhe nos dentes lindos. Esqueço a dor? Não sei dizer.

Um dia, organizando uma viagem na T. Cook, por razões de logística, questionei apropriadamente

- tem filhos?

o senhor Oscar W.

Ele ficou a construir uma ausência longa pelos hotéis de luxo anunciados ali no estabelecimento, até me confessar:

- gostaria, mas não tenho ovários.

Obviamente, senti-lhe o mesmo desconforto das pessoas de meia-idade para cima, muito chegadas ao volante, a conduzirem automóvel (...)



publicado por J. Crimesalapis às 00:59 | link do post

Quarta-feira, 28.07.10

(...) quando a Paula, minha namorada na altura, me trocou por toda a Banda Filarmónica, entrei numa sinfonia depressiva completa e enclausurei-me na despensa para alimentar o insaciável bucho da minha auto-estima. Por razões de logística, aos duzentos e cinquenta quilos trouxeram-me para a sala, a maior divisão da casa, tendo ali permanecido, deitado no sofá e entubado directamente à cozinha, os cinco anos seguintes.

Foi um tempo em que a gula me levou a comer tudo o que havia, incluindo os meus burgueses apelidos. Fiquei Domingos, só - no entanto, chamam-me Domingos Gordo, por esmola do Escárnio Mínimo Nacional, diz-se.

Até, a família por exaustão e a Protecção Civil por morbidez, enviarem a minha obesidade a tratamento veraneio na Costa da Caparica, estacionando-me de paredão a derreter o sebo junto ao «Barbas». Aí perdi quilos, assustei o carapau e irritei os pescadores.
Mais tarde, a pretexto de me tornar, por meiose, membro da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas, foi-me concedida estada gratuita em Davos, da Montanha Mágica - Der Zauberberg - de Thomas Mann, local onde os ricos se costumam reunir para tratar a tuberculose dos pobrezinhos. Foram quinze dias maravilhosos na companhia de Hans Castorp, até ele desaparecer numa canja.

Isto há um ror de anos, nem sei quantos: comi-os (...)



publicado por J. Crimesalapis às 11:26 | link do post

Terça-feira, 13.07.10

(…) em bem não, alguém se comova e me faça mal ao coração. Que a veia, por entupir um nadinha, esvaziou-me de vontade soberana, estancando a minha vida na prateleira dos arrumos, a ganhar borboleta nas algemas dum lençol de chumbo. Um corpo, terei corpo, suponho, enrodilhado sem haver endireita para lhe dar um jeito à espinha, nem físico que lhe acelere as partículas oblíquas, da cama tripartida ao reverso do mundo. No intervalo dos comprimidos, o semblante do meu pai, numa pietà invertida, aflige o espelho da cómoda, embaciando-se depois no toalhete estridente e soletrado

- ba nhi nho!

das do apoio, em bem não, alguém se comova e me faça mal ao coração, mudando-me de canal para dar sumiço a este incessante televisor que é de longe a minha rua, com pessoas nossas dentro e tudo, as do apoio

- pa ra  se  en tre ter!

ainda mais alto. De miolos a mancar subo às frases mais robustas, mas elas esfarelam-se como um torrãozinho de açúcar no céu da minha boca e, desamparada, caio de pantanas no betão do meu silêncio, escutando andorinhas que não encontro num horizonte de ripas de madeira onde o badalo das horas ecoa finados, em bem não, alguém se comova e me faça mal ao coração. Que, aqui há atrasado, antes de mirrar entrevada, era maria. Lembrem-se (…)



publicado por J. Crimesalapis às 15:20 | link do post

Quarta-feira, 30.06.10

(…) visto-me de ti na maquilhagem, uma sombra clara, um rímel e o baton logo combina, havias de ver, os brincos de oiro da tua mãe a adorarem o estampado no top cavalli, gosto tanto de me olhar assim arranjada, neste corpete que me afivela quilos apenas de vaidade, depois só acrescento postiços nas ancas para me darem rabo à mini deslumbrante e, não saio mas se saísse, havias de ver, homens maljeitosos a espreitarem-me o íntimo  nalguma falisga das pernas menos cispada, dando comigo a empinar copa aos meus peitos caídos de senhor idoso cheio de ciúme dos teus, havias de ver, a maneira como escondo a calvície sob perucas de estalo feitas em sintético, mas num sintético bom, nem se nota diferença quando bem escovadas e lá nisso esmero-me, havias de ver, já me ajeito em tacões mas no inicio vi-me e desejei-me a praticar só quando os de baixo - já não são os mesmos, não - iam aos pais dela. Assim tão alto e maravilhosa, chorar-me-ias

- querida

boquiaberta, havias de ver (…)



publicado por J. Crimesalapis às 09:43 | link do post

Segunda-feira, 28.06.10

(…) a pessoa mais triste que conheci tinha a elegância de um cadáver bem arranjado, olhos como as operadoras de caixa do pingo doce preguntam

- tem cartão

indiferentes, médicos que não lhe saravam o peito, com tanto antibiótico de largo espectro e continuou insignificante, até nas cartas do clube alguém escreveu doutor fulano de tal que era ele no duque de paus, uma pena, mas nem isso porque essa tristura era luxo falso e quando riqueza desilude a miséria à volta não mete dó, legitima raiva, numa fila grande de carrinhos a chegar ao vinagre

- olhem-me este

 se a do pingo doce lhe passasse o peito no código de barras, a custo

- preciso desembrulhar

depois o diagnóstico sairia discriminado no papelinho da conta, entre giletes e iogurtes para a barriga inchada (…)



publicado por J. Crimesalapis às 21:29 | link do post

Sexta-feira, 25.06.10

(…) meu avô veio da primeira guerra afectado dos pulmões, com um furúnculo descomunal de lado no pescoço e desarranjado da cabeça, como dizíamos baixinho, direito às trincheiras do seu quarto sombrio, de onde colérico hostilizava as visitas a tossir

- boches

até se cansar de

- boches

chamando-me, então, pelo nome do meu pai

- james

para me oferecer bolachas e pedir

- um beijo

mas no receio de me arranhar com o arame farpado da barba

- antes, traz a baioneta

e eu, ainda no torpor de espreitar o quisto inchado, lá ia procurar o barbeiro, deixando-o sozinho em la lys aos tiros na sua metralhadora

- luisinha

também nome da mulher daquele fígaro, uma senhora cheia de nódoas negras devido ao vinho ruim (…)



publicado por J. Crimesalapis às 21:39 | link do post

Terça-feira, 22.06.10

(…) de manhã o sol, ainda as coisas dormem, destapa o pó a móveis irrepreensíveis, restaura tinta sonolenta à natureza morta, dá lustro ao cristal da boémia encafuado na vitrina, escandaliza adjectivos adolescentes que regressam com olheiras a livros permissivos, retoma sorrisos nos retratos de familia acomodados em naperons e, depois, exala cheiros a café para emendar o lastro da noite sóbria. De manhã o sol, ainda

- nós

as coisas dormem (…)



publicado por J. Crimesalapis às 17:25 | link do post

Sexta-feira, 18.06.10

(...) dos cinquenta em diante apetece-me passar tardes no alpendre, de costas ao poente, a ouvir um gato no quintal pegado, não sei se um gato se uma criança, à pouco parecia um gato, depois criança e de novo gato, não sei se por caminhar pra mouco, piso algumas formigas das que me rondam os pés aliciadas por migalhas do meu peito, sacrificando-as ao martírio em prol da comunidade a viver numa greta entre moisacos

- mosaicos, james

foi o que eu disse, depois fico a observar o frenesim consternado do formigueiro hesitante entre exéquias e pão-de-ló, sem saber que deus existe mesmo, toma comprimidos para a tensão e, daqui a nada, vai dar uma mangueirada nos moisacos,

- mosaicos, james

foi o que eu disse (...)

 



publicado por J. Crimesalapis às 15:24 | link do post

Quinta-feira, 17.06.10

 

(...) picar na tábua a chorar,

- não a dor 

como nos nocturnos, dó sustenido,

- desculpe senhor chopin

de guilhotina rente à pele a dar fineza

- cuidado 

para alourar num fio de azeite,

- quanto baste

evitando esturricar os prelúdios,

- está a chegar-me cá uma ideia madame

bela peça este a insinuar-se, 

- tenha juízo senhor chopin

de roda da saia,

-

se descuida e faltam-lhe dedos,

- veja lá

a seguir tocata e fuga à cebola,

diabo do velho

não que lembre o seu frederico,

- vou aos cigarros

isto há vinte anos,

- mas tu não fumas amor

e tardou no fumo, ela ralada,

- aquilo o homem perdeu-se,

toca soprano a ir atrás do cheiro,

- frederico

a continuar soprano depois do cheiro,

- frederico

até hoje, experiência non finito, sem ele assinar,

o meu marido não está

entretanto, numa noite um acorde,

- frederico

nota mais frágil que responde,

- madame

o ressoar antigo, duzentos anos de fantasma,

- está a chegar-me cá uma ideia madame,

tão inocente, subtil e melódico como os piores,

- sou uma mulher de respeito

na harmonia que dela se apodera,

- casada ouviu (...)

 

 

 

 



publicado por J. Crimesalapis às 00:00 | link do post

Terça-feira, 08.06.10

(...) quando entrei de mochila, o compartimento do comboio era um casal amoroso, o homem impecável e a mulher muito briosa a inventariar com minúcia  ciscos na roupa dele. Que cedo me percebeu, interRail. E, devido ao tarro, ela também, ai jesus, abílio.

Observado, senti-me um retrato antigo encontrado numa gaveta, algures no sótão, daqueles cotas nostálgicos, com o abílio a despir anos para caber na fotografia, de olho na mochila para se pirar sozinho e ela, nem penses, abílio, a apanhar-lhe o tempo do chão, a dobrá-lo e a arrumá-lo por meses, cheia de vontade de me soprar o pó, salixe, e bazei ao bar a ver das camones.

Mas, como não havia as camones, regressei aviado de bejecas. Ela dormitava, salixe, abri uma latinha, puff, e baixinho, servido amigo, o cota compincha mas um olho dela aberto, olha as nódoas, abílio, deixou-me, salixe, mais fica, sozinho aos puffs até hendaya onde demorávamos uma eternidade parados, porra, emendei, caramba, e a velha com vontade, ai jesus, abílio, de me fazer uma barrela, quinze dias de molho. Eu, salixe, bazei atrás dum charro.

Mas, como não havia charros, verti cerveja e voltei pouco aliviado, bem, daqui não saímos, então o abílio a explicar-me, estão  a mudar, e a do abílio a descarrilar-me, as rodas ao comboio, quer dizer, sou chavalo mas não sou otário, peguei na mochila e bazei definitivo.

Agora, o meritíssimo juiz diz-me que estavam mesmo a mudar as rodas ao comboio, por causa da largura entre carris ser diferente de hendaya em diante, motivado às guerras, invasões e essas coisas todas, bom, assim aceito, mas não sei de nenhum cadáver (…)

 

 



publicado por J. Crimesalapis às 18:02 | link do post

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